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Jornal Aberto - Crónicas
Crónicas

Crónicas (8)

O Cristóvão morreu.
 
O Cristóvão morreu. Poderia ser só isto. Mas não. É preciso dizer mais. É preciso dar voz ao Cristóvão. É preciso lembrá-lo. 
O Cristóvão era um menino pobre. Vivia com a avó que cuidava dele como se fosse a sua mãe, a mesma que deu de fosques quando o trouxe ao mundo. 
O Cristóvão foi crescendo, sempre sorridente, enérgico e brincalhão. Era um miúdo travesso, o Cristóvão. Não era apaixonado pelos estudos, mas tinha um dom. Desenhava como ninguém. Desenhava pessoas, flores, animais. O desenho era a sua paixão e companhia dos dias de solidão. 
Apesar de ser um menino simpático, o Cristóvão cheirava mal. As outras crianças afastavam-se dele, ignoravam-no. Mas ele não tinha culpa. Era pobre. E em alguns momentos, precisava até de surripiar o lanche dos amiguinhos para poder encher a barriga e matar a fome antes que ela o matasse. 
Portava-se mal, de vez em quando. Rebelde. Matreiro. Às vezes, juntava-se aos meninos maus, mas não era mau. Procurava integrar-se. E fazer asneiras era a forma de se ligar às outras crianças. De ser aceite. 
Foi-se tornando homem, e as circunstâncias da vida levaram-no a tomar muitas escolhas erradas. 
Hoje o Cristóvão morreu. Espancaram-no até à morte. Mas como sabemos, a justiça não funciona bem, e os malfeitores irão caminhar ao nosso lado, sem que imaginemos que carregam nas mãos, o sangue do Cristóvão. É que o Cristóvão era pobre, estava por conta própria, vivia, como quem diz, ao Deus-Dará. E como sabemos, a justiça não funciona bem para os Cristóvãos deste país.
Hoje recordemos esse rapazinho que mesmo não tendo tido o amor da mãe, no dia de celebrar as mães, desenhava com carinho rosas e malmequeres para os seus amiguinhos oferecerem às mamãs. O miúdo travesso a quem a vida foi madrasta. O miúdo que sorria mesmo com fome.
Que a morte do Cristóvão não seja em vão. Que sirva para que sejamos capazes de estender a mão a quem precisa, que saibamos acarinhar aquele que sofre, e que o mundo comece a dar as mesmas oportunidades a quem não nasce em berço de ouro. 
Se a vida do Cristóvão não fez a diferença no mundo, que a sua morte seja capaz de a fazer.
 
 

 
Já dizia aquele ditado super antigo, tipo da época dos romanos que “à mulher de César não basta ser, é preciso parecer”.
 
Tenho pena dessa tal mulher de César, pois tem de viver com uma pessoa que tem a mania das grandezas.
 
Este ditado claramente não se aplica ao cidadão Sócrates.
 
Não ao da Grécia antiga! Mas ao do Portugal contemporâneo. Se bem que ambos vivem sob a mesma máxima “Só sabem que nada sabem”!
 
José Sócrates não diz que tem. Ele não vive de aparências, meus caros! Ele diz à “boca cheia” que os bens não são dele, que são fruto de empréstimo de familiares e amigos!
 
“Botai” olhinhos nele! Ele é um exemplo a seguir. 
 
Quem de vós, mulheres com maminhas de silicone, é capaz de assumir que pôs implantes mamários? Ninguém, não é? Tudo natural! Pois estou convencida de que se José Sócrates tivesse maminhas de silicone, era menino para dizer que as que ele tem maminhas são, afinal, do primo que ele tem em Quinxassa.
 
Sócrates, por exemplo, tem 61 anos. Mas, na realidade 50% da sua idade está dividida entre os seus familiares e amigos. Ele é uma pessoa que gosta da partilha e, principalmente que façam a partilha com ele.
 
Os filhos que ele tem, por exemplo, são metade dele. A outra metade é da ex-mulher. Sim, ex-mulher. Ele também não quis arcar com mais essa responsabilidade e despesa. 
 
O livro que ele escreveu, diz-se à boca pequena que não foi ele que escreveu. Deve ter sido também um amigo que escreveu e ele, muito gentilmente, cedeu para que o seu nome surgisse como autor. Vê-se logo que é uma pessoa desapegada dos bens materiais e voltada para a cenas filosóficas da vida.
 
Nós temos muito a aprender com o nosso concidadão José Sócrates. Que é uma pessoa que parece ser rico, mas não é. Porque ele não anda aí a dizer: “ai e tal que tenho um apartamento em Paris, com vista para a Torre Eiffel!” Não senhora! Fossemos nós, comuns cidadãos, dizíamos com toda a pompa e circunstância: “Vou passar as férias de Natal ao MEU apartamento de Paris!”. Mas, na realidade, esse apartamento é, afinal, um empréstimo de um tio de um amigo. 
 
É muito mais fácil e aprazível quando se tem um primo, tio ou amigo, que volta e meia, te dá uma casa ou te dá dinheiro.
 
Nesta altura natalícia, tão propícia à hipocrisia das aparências olhai para o exemplo de uma pessoa que tudo o que tem, nada é dele. Quereis mais desprendimento do que este? É muito enjoativo teres de viver sempre no mesmo apartamento. Principalmente quando tens de o pagar durante 50 anos. 
O que têm em comum as pêgas (aves), poupas (também aves) com o sobre-endividamento das famílias portuguesas?
 
Aparentemente, nada. É até um bocado estúpido fazer essa analogia.
Mas vai fazer sentido se fizermos uma reflexão sobre isso. Tudo anda à volta dos ninhos (casas).
 
De quando em vez, a minha mãe, que gosta imenso de ditados populares portugueses, e é ainda da época em que era possível fazer poupança, quando se comenta que alguém é forreta e que não gasta dinheiro com os pequenos (ou grandes) prazeres da vida para poupar para o dia de amanhã, senhora minha mãe utiliza o sábio ditado "Poupa, poupa e fazes um ninho de merda cocó!"
 
Toda a sabedoria popular portuguesa numa só frase!  E faz sentido fazer esta analogia da poupança com o ninho das Poupas e das Pegas, e passo a explicar:
As poupas são umas aves muito giras que, para além de terem um carrapito na cabeça (poupa,) fazem, literalmente, um ninho de excrementos. As poupas nidificam em buracos de árvores e, como forma de afastar eventuais predadores, estas expelem uma substância fétida. Daí o ditado.
 
Traduzindo isto para a vida do dia-a-dia, os portugueses, nos tempos que correm, não poupam, ponto. Portanto, isto já não é como antigamente, em que as pessoas metiam o dinheiro debaixo do colchão e pagavam a casa a pronto.
 
Atualmente o português vai ao banco e endivida-se até ao tutano para comprar casa, com crédito a 150 anos, com quatro fiadores e atestado criminal imaculado. Lá está: o tal ninho de merda! E de merda porquê? Por variadíssimas razões:
 
1.º Pedir crédito é uma merda (eu que o diga). É mais fácil sair do Protocolo de Quioto do que te livrares de um crédito.
2.º Os créditos são mais duradouros do que os casamentos. Aliás, podes acabar com o casamento, mas o banco jamais de te deixa sair do crédito.
3.º Mesmo que morras e tenhas o seguro de vida em dia, quem cá fica terá sempre de provar que morreste para que a seguradora ative o seguro. Por vezes um simples atestado de óbito não chega...
4.º Até podes ter morrido, mas deixas dívidas e descendência? A tua vida, só, não chega. Tens toda uma árvore genealógica para continuar a pagar o crédito.
 
Mas há ainda outro ditado popular português que ilustra bem o explicado supra: "Ninho feito, pega morta".
Lá está: estás com quase 120 anos, terminas de pagar o crédito ao banco e tens um AVC ou ataque cardíaco e "bates a bota" sem gozares um sequer minuto de liberdade bancária.
Trabalhaste até aos 100 anos (sim, qualquer dia a idade da reforma vai ser essa!) para andares de "cara levantada" e "não deveres nada a ninguém", tens as contas em dia e olhas para trás e tomas consciência de que sobreviveste a um crédito.
 
Não VIVESTE! "Arrastaste correntes" para deixar uma casinha para os filhos que, eventualmente, mais tarde, nem sequer vão querer aquela casa e vão viver para Bali, depois de fazer o roteiro do livro "Comer, Orar, Amar".
De facto, eles é que estão certos, porque o melhor da vida é comer, orar e amar.
O Cristóvão morreu. Poderia ser só isto. Mas não. É preciso dizer mais. É preciso dar voz ao Cristóvão. É preciso lembrá-lo. 
O Cristóvão era um menino pobre. Vivia com a avó que cuidava dele como se fosse a sua mãe, a mesma que deu de fosques quando o trouxe ao mundo. 
 
O Cristóvão foi crescendo, sempre sorridente, enérgico e brincalhão. Era um miúdo travesso, o Cristóvão. Não era apaixonado pelos estudos, mas tinha um dom. Desenhava como ninguém. Desenhava pessoas, flores, animais. O desenho era a sua paixão e companhia dos dias de solidão. 
 
Apesar de ser um menino simpático, o Cristóvão cheirava mal. As outras crianças afastavam-se dele, ignoravam-no. Mas ele não tinha culpa. Era pobre. E em alguns momentos, precisava até de surripiar o lanche dos amiguinhos para poder encher a barriga e matar a fome antes que ela o matasse. 
 
Portava-se mal, de vez em quando. Rebelde. Matreiro. Às vezes, juntava-se aos meninos maus, mas não era mau. Procurava integrar-se. E fazer asneiras era a forma de se ligar às outras crianças. De ser aceite. 
 
Foi-se tornando homem, e as circunstâncias da vida levaram-no a tomar muitas escolhas erradas. 
 
Hoje o Cristóvão morreu. Espancaram-no até à morte. Mas como sabemos, a justiça não funciona bem, e os malfeitores irão caminhar ao nosso lado, sem que imaginemos que carregam nas mãos, o sangue do Cristóvão. É que o Cristóvão era pobre, estava por conta própria, vivia, como quem diz, ao Deus-Dará. E como sabemos, a justiça não funciona bem para os Cristóvãos deste país.
 
Hoje recordemos esse rapazinho que mesmo não tendo tido o amor da mãe, no dia de celebrar as mães, desenhava com carinho rosas e malmequeres para os seus amiguinhos oferecerem às mamãs. O miúdo travesso a quem a vida foi madrasta. O miúdo que sorria mesmo com fome.
 
Que a morte do Cristóvão não seja em vão. Que sirva para que sejamos capazes de estender a mão a quem precisa, que saibamos acarinhar aquele que sofre, e que o mundo comece a dar as mesmas oportunidades a quem não nasce em berço de ouro. 
 
Se a vida do Cristóvão não fez a diferença no mundo, que a sua morte seja capaz de a fazer.
15 maio
Aviso: Este texto contém ironia. 
 
Dos dados estatísticos que a APAV nos disponibiliza de 2017, em média 5.036 mulheres foram vitimas de algum tipo de violência. Das vitimas apoiadas registam-se 82,5% do sexo feminino. Será que estes estudos foram feitos por mulheres? 
 
Quem são os culpados de todos estes crimes? As mulheres, claro está. Quem lhes disse que deveriam considerar-se pessoas?
 
Se as mulheres são vitimas de crimes sexuais, de quem é a culpa, senão delas próprias? Os homens tem desejos, claramente, e elas vestem-se de forma provocadora, não entendem que nem as burcas as tornam menos sensuais, praticamente, instigam o sexo oposto, apelam para que eles se «façam ao bife». E depois choram, seres engraçados, desprovidos de bom senso. 
 
Expurgar as mulheres da sociedade é a forma mais sábia de evitar os crimes contra as mulheres, até porque, essa mesma escumalha gera os homens no seu ventre por 9 meses, logo, a culpa de tudo o que eles fazem depois que são expelidos do útero é exclusiva de quem? Hmm… 
 
As mulheres não precisam ser independentes, não precisam de estudos superiores, de trabalhos bem pagos, ou de conduzir um carro topo de gama, para isso servem os namorados, os amigos e os maridos? E imagine-se a sorte de ter um marido abusador, um crime sexual nunca será um crime, de facto, porque ele é seu marido, e os maridos podem. Podem tudo. 
 
Inclusive, levar-te a acreditar que a culpa é tua, que tu escolheste encarnar o papel de vitima, que tu poderias permanecer em silencio, e que a tua dignidade poderia ser cozinhada em lume brando, enquanto ele te agride, abusa, e prende a tua vida numa ampulheta, assistindo em zona VIP a essa mesma vida sendo dissipada. 
 
O tempo está a contar, e se ele te matar, a culpa é tua que nasceste mulher. 
 
Letícia Brito, 11 de Maio de 2018
 
02 março
O que fazes quando tens um relógio e o mesmo deixa de funcionar? 
 
Se é um Rolex não tens problemas em gastar uns bons trocos para o consertar.
 
Se foi um relógio que compraste nos “chinocas”, que te custou pouco mais de cinco euros, vais pensar duas vezes, antes de gastar dinheiro para o compor, correto?
 
Se fores suficientemente estúpido, pagas vinte pelo conserto de uma peça de cinco, se fores sábio, poupas dinheiro e compras um relógio de cem e com garantia de qualidade. 
 
O mesmo acontece com as pessoas, podes compará-las aos relógios. Existem aquelas que são baratas, que precisas dar-lhes corda com frequência e que se estragam a “torto e a direito”.
 
Depois existem aquelas com qualidade, que vão funcionar (quase) na perfeição, que não precisarão ser consertadas o tempo inteiro e que podem durar uma vida. Com sorte, algum neto sortudo ainda herda o teu Rolex.
 
Ser inteligente é saber o momento exato em que precisas deitar fora o relógio ao invés de o mandares consertar.
 
Ser inteligente é saber o momento exato de excluíres os relógios baratos da tua vida e colocares no teu pulso um relógio de qualidade.
 
Pois é, já paraste para pensar? As pessoas são exatamente como os relógios.
 
Letícia Brito