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Emoção e mar de gente nos funerais PDF Imprimir e-mail
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18-Sep-2009

Um mar de gente emocionada despediu-se, hoje, de quatro das sete vítimas mortais do desastre da Variante do Cavalum, ocorrido na passada quarta-feira, em Penafiel. Ontem, foram a sepultar as restantes três jovens em ambiente de profunda dor colectiva.

Uma mensagem de condolências do bispo do Porto, D. Manuel Clemente, dirigida às famílias enlutadas e transmitida aos familiares pelo pároco de Rio de Moinhos, em plena homilia, deixou consternada a impressionante moldura humana que acompanhou o funeral da jovem condutora da Renault Kangoo, Tânia Silva, de 19 anos.

 Ainda recente na paróquia, onde chegou no passado dia 6, o sacerdote Filipe Manuel, de 25 anos, lembrou que a morte é sempre difícil de ser compreendida.

“Há uma sensação de vazio em que a vida parece não fazer sentido”, frisou, procurando confortar os presentes. Mais de metade das pessoas não conseguiu entrar na igreja, permanecendo em silêncio absoluto, enquanto decorreu a celebração litúrgica.

Tânia, aluna do 2º ano do curso de Contabilidade, estagiava na empresa GJR, Pirotecnia.

Joaquim Rodrigues, administrador da firma, acabado de chegar da Madeira, onde teve conhecimento do acidente da Variante do Cavalum, não imaginava tratar-se de Tânia.

“Soube de quem se tratava quando cheguei a Rio de Moinhos. A Tânia tinha um objectivo: trabalhar na serralharia do pai para ajudar a família”, contou.

 Descrevendo-a como uma jovem “inteligente, divertida e muito dinâmica”, Joaquim Rodrigues confessou-se “profundamente emocionado” com a tragédia.

 Finda a cerimónia litúrgica, a multidão desatou a bater palmas e acompanhou em silêncio o corpo até à sepultura.
Desde as dez horas em câmara-ardente na Capela de Santo António, os restos mortais de Cláudia Cancela, de 19 anos, foram a sepultar no cemitério  do Pinheiro, às 17h30.

A missa foi celebrada pelo Padre Casaca na igreja paroquial, cujo espaço foi exíguo. “Pode parecer uma morte como tantas outras, mas tornou-se muito diferente pela dimensão da tragédia”, afirmou o presidente da Junta de Freguesia Manuel Pinto.

Em Boelhe, por volta das 18 horas, nova moldura humana, em silêncio profundo, esteve no funeral de Fernanda Rocha, de 19 anos. Dois padres Missionários Combonianos, Francisco Machado e José de Sousa, participaram na celebração religiosa com o padre Felisberto Capela.

O sacerdote Francisco Machado disse que a família de Fernanda Cancela participa em muitas acções promovidas pelos Combonianos. “Quisemos retribuir com a nossa presença e com a nossa dor”, sublinhou.

 À mesma hora, em Duas Igrejas (Paredes) mais um gigante mar de gente, empunhando rosas brancas, disse adeus à jovem Célia Santos, de apenas 17 anos.

Em todos os funerais foi notória a presença de muitos jovens, emocionados e abraçados uns aos outros, em pequenos grupos.
 Ontem, três das sete vítimas mortais foram ontem a sepultar.

Foi o primeiro funeral que o jovem Padre Paulo Aires realizou em Bustelo, Penafiel, paróquia onde chegou, apenas, no passado domingo.

Presidiu emocionado às exéquias de Carla Calisto, de 17 anos, de Meinedo (Lousada).

“É muito difícil esta situação, sobretudo, porque ainda não conheço a comunidade e o modo como ela reage a uma tragédia desta dimensão. Estou profundamente emocionado”, confessou o sacerdote.

 Durante a homilia, o sacerdote lembrou que, por mais que as pessoas estejam preparadas para uma fatalidade destas, nunca estão preparadas, interrogando-se: “Por que razão o Homem se envolve em tantos problemas?!”.

 O corpo de Carla esteve em câmara-ardente na capela mortuária de Bustelo. No exterior, a multidão, sobretudo muita juventude, manifestava pesar e dor.

“Vamos dar as mãos uns aos outros. Vá lá, todos juntos”, ordenou uma professora de Carla Calisto, a forma encontrada pela docente para aliviar tensão da turma. Em silêncio, numa roda, rapazes e raparigas não continham as lágrimas. E não só eles. A massa anónima interiorizou o luto das várias famílias afectadas com esta tragédia.

Colegas de turma, Rui Vieira, 17 anos, de Cabeça Santa, Mário Veiga, de 18 anos, de Paços de Ferreira, António Magalhães, de 19 anos, de Boim (Lousada) e Cláudia Ribeiro, de 17 anos, de Abragão, revelavam-se muito fragilizados. “Na sala ficamos em U. Vemo-nos uns aos outros, e agora quando regressarmos às aulas vamos ver sete cadeiras vazias. Não sei como vamos reagir”, desabafou Rui Vieira.

 Por decisão do centro de formação, as aulas foram suspensas até sexta-feira. Na segunda-feira os formandos vão para estágio profissional e regressam aos estudos dentro de 15 dias.

 Neste ambiente de tensão, uma familiar idosa de Carla foi informada da morte da jovem, por um familiar. A família optou por avisar a anciã da morte só na hora do funeral, seguindo-se momentos muito dramáticos.

 Duas horas depois, a freguesia de Abragão despediu-se de Andreia Teixeira, de 17 anos.

Restaurantes, fábricas e pequenos comércios fecharam as portas e uma impressionante moldura humana acompanhou as exéquias.

 Pela rua acima, em direcção à igreja paroquial, grupos de dois e três jovens, abraçados uns nos outros, choravam compulsivamente. Há, pelo menos, dez anos que Abragão nunca viu um funeral desta dimensão.

“É uma freguesia em choque com muitos corações destroçados”, sublinhou o jovem José Silvares. “Isto custa, isto custa!... É preciso dominar-se para não chorar, humanamente falando” disse o sacerdote, do alto do altar, pedindo insistentemente que as pessoas controlassem “um poucochinho” o choro. Em vão.

No final das cerimónias religiosas, uma jovem dirigiu uma mensagem à amiga falecida: “Andreia, és a estrela mais brilhante do Céu! Não vamos chorar porque partiste, mas vamos guardar o teu sorriso”, leu, a soluçar. E de súbito irromperam palmas e choros que causaram calafrios nos presentes.

 À entra do cemitério um jovem, primo de Andreia, desmaiou e logo a seguir a mãe deste jovem, também, sofreu um desmaio, tendo o filho dela sido levado ao hospital de Penafiel, pelos bombeiros.

 A tragédia assumiu aqui maiores dimensões, pelo facto de estar viva na memória das pessoas o casamento recente da única irmã de Andreia, no passado mês.

 Na freguesia de Marecos, Penafiel, o funeral de Tânia Moreira (Nelinha), de19 anos, juntou igualmente tanta gente que nem todos conseguiram entrar na igreja. Monsenhor Gabriel presidiu às exéquias, recordando todos as jovens falecidas.

“Não nos lembrámos de haver um funeral tão grande aqui. A freguesia esteve toda em peso e ainda veio muita gente de fora”, disse um dos presentes no funeral.

A Câmara de Penafiel fez-se representar ao mais alto nível nos funerais, bem como os centros de formação e o IEFP.

 
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