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Letícia Brito

Letícia Brito

20 junho

O CRISTÓVÃO MORREU.

O Cristóvão morreu. Poderia ser só isto. Mas não. É preciso dizer mais. É preciso dar voz ao Cristóvão. É preciso lembrá-lo. 
O Cristóvão era um menino pobre. Vivia com a avó que cuidava dele como se fosse a sua mãe, a mesma que deu de fosques quando o trouxe ao mundo. 
 
O Cristóvão foi crescendo, sempre sorridente, enérgico e brincalhão. Era um miúdo travesso, o Cristóvão. Não era apaixonado pelos estudos, mas tinha um dom. Desenhava como ninguém. Desenhava pessoas, flores, animais. O desenho era a sua paixão e companhia dos dias de solidão. 
 
Apesar de ser um menino simpático, o Cristóvão cheirava mal. As outras crianças afastavam-se dele, ignoravam-no. Mas ele não tinha culpa. Era pobre. E em alguns momentos, precisava até de surripiar o lanche dos amiguinhos para poder encher a barriga e matar a fome antes que ela o matasse. 
 
Portava-se mal, de vez em quando. Rebelde. Matreiro. Às vezes, juntava-se aos meninos maus, mas não era mau. Procurava integrar-se. E fazer asneiras era a forma de se ligar às outras crianças. De ser aceite. 
 
Foi-se tornando homem, e as circunstâncias da vida levaram-no a tomar muitas escolhas erradas. 
 
Hoje o Cristóvão morreu. Espancaram-no até à morte. Mas como sabemos, a justiça não funciona bem, e os malfeitores irão caminhar ao nosso lado, sem que imaginemos que carregam nas mãos, o sangue do Cristóvão. É que o Cristóvão era pobre, estava por conta própria, vivia, como quem diz, ao Deus-Dará. E como sabemos, a justiça não funciona bem para os Cristóvãos deste país.
 
Hoje recordemos esse rapazinho que mesmo não tendo tido o amor da mãe, no dia de celebrar as mães, desenhava com carinho rosas e malmequeres para os seus amiguinhos oferecerem às mamãs. O miúdo travesso a quem a vida foi madrasta. O miúdo que sorria mesmo com fome.
 
Que a morte do Cristóvão não seja em vão. Que sirva para que sejamos capazes de estender a mão a quem precisa, que saibamos acarinhar aquele que sofre, e que o mundo comece a dar as mesmas oportunidades a quem não nasce em berço de ouro. 
 
Se a vida do Cristóvão não fez a diferença no mundo, que a sua morte seja capaz de a fazer.
15 maio

MULHER!

Aviso: Este texto contém ironia. 
 
Dos dados estatísticos que a APAV nos disponibiliza de 2017, em média 5.036 mulheres foram vitimas de algum tipo de violência. Das vitimas apoiadas registam-se 82,5% do sexo feminino. Será que estes estudos foram feitos por mulheres? 
 
Quem são os culpados de todos estes crimes? As mulheres, claro está. Quem lhes disse que deveriam considerar-se pessoas?
 
Se as mulheres são vitimas de crimes sexuais, de quem é a culpa, senão delas próprias? Os homens tem desejos, claramente, e elas vestem-se de forma provocadora, não entendem que nem as burcas as tornam menos sensuais, praticamente, instigam o sexo oposto, apelam para que eles se «façam ao bife». E depois choram, seres engraçados, desprovidos de bom senso. 
 
Expurgar as mulheres da sociedade é a forma mais sábia de evitar os crimes contra as mulheres, até porque, essa mesma escumalha gera os homens no seu ventre por 9 meses, logo, a culpa de tudo o que eles fazem depois que são expelidos do útero é exclusiva de quem? Hmm… 
 
As mulheres não precisam ser independentes, não precisam de estudos superiores, de trabalhos bem pagos, ou de conduzir um carro topo de gama, para isso servem os namorados, os amigos e os maridos? E imagine-se a sorte de ter um marido abusador, um crime sexual nunca será um crime, de facto, porque ele é seu marido, e os maridos podem. Podem tudo. 
 
Inclusive, levar-te a acreditar que a culpa é tua, que tu escolheste encarnar o papel de vitima, que tu poderias permanecer em silencio, e que a tua dignidade poderia ser cozinhada em lume brando, enquanto ele te agride, abusa, e prende a tua vida numa ampulheta, assistindo em zona VIP a essa mesma vida sendo dissipada. 
 
O tempo está a contar, e se ele te matar, a culpa é tua que nasceste mulher. 
 
Letícia Brito, 11 de Maio de 2018
 
02 março

Rolex da vida

O que fazes quando tens um relógio e o mesmo deixa de funcionar? 
 
Se é um Rolex não tens problemas em gastar uns bons trocos para o consertar.
 
Se foi um relógio que compraste nos “chinocas”, que te custou pouco mais de cinco euros, vais pensar duas vezes, antes de gastar dinheiro para o compor, correto?
 
Se fores suficientemente estúpido, pagas vinte pelo conserto de uma peça de cinco, se fores sábio, poupas dinheiro e compras um relógio de cem e com garantia de qualidade. 
 
O mesmo acontece com as pessoas, podes compará-las aos relógios. Existem aquelas que são baratas, que precisas dar-lhes corda com frequência e que se estragam a “torto e a direito”.
 
Depois existem aquelas com qualidade, que vão funcionar (quase) na perfeição, que não precisarão ser consertadas o tempo inteiro e que podem durar uma vida. Com sorte, algum neto sortudo ainda herda o teu Rolex.
 
Ser inteligente é saber o momento exato em que precisas deitar fora o relógio ao invés de o mandares consertar.
 
Ser inteligente é saber o momento exato de excluíres os relógios baratos da tua vida e colocares no teu pulso um relógio de qualidade.
 
Pois é, já paraste para pensar? As pessoas são exatamente como os relógios.
 
Letícia Brito
11 fevereiro

Amor, penitência e palhaços

A propósito do Dia dos Namorados que este ano coincide com a palhaçada e com a penitência, é importante deixar alguns pontos assentes. 
 
Não existem relações perfeitas, mas quando se ama, a perfeição fica à parte, o importante é amar o outro com o nosso melhor.
Relações são complexas. 
 
As pessoas são diferentes e colidem. Mas as diferenças fazem com que, na mesma medida, as pessoas se aproximem umas das outras e se completem.
 
Haverá dias maus e bons. Momentos em que teremos vontade de desistir, e outros em que vamos parar, refletir e compreender o amor.
 
Seremos orgulhosos, mas daremos o braço a torcer e vamos à guerra – e quem vai à guerra, dá e leva, já diz o ditado.
 
Vamos agarrar o outro com unhas e dentes, porque é disso que é feito o amor: é um dar sem esperar receber, é uma luta constante até ao fim.
 
Se hoje o dia foi chuvoso, podemos pintar um arco-íris no nosso céu, afinal, quando duas pessoas se amam, não importa o que aconteça, elas sempre arranjarão uma forma de ficarem juntas. 
 
Não fiquemos em relações que são verdadeiras penitências, que nos corroem até aos ossos, mas também, não façamos do amor, uma autêntica palhaçada. Que amar só vale a pena se for para rir, é verdade, mas rir de tudo é desespero.
04 fevereiro

TERRA DA LIBERDADE

Entre 2013 e 2016, a APAV registou um total de 29.619 processos de apoio a pessoas vítimas de Violência Doméstica, mais de 85% eram mulheres.
 
Mulheres que viram os seus sonhos serem interrompidos, os seus objetivos serem espezinhados quando deram o último suspiro agonizando uma morte que não mereciam.
 
Quando o sol brilha é para todos, correto? Então onde fica a igualdade de género? Esse termo rodeado de tabus, que suscita discussão, preconceito, medo e morte?
 
A igualdade de género implica abolir a discriminação entre os sexos, e que não seja favorecido o homem em nenhum aspeto da vida social, tal como era frequente há algumas décadas.
 
Atualmente, a sociedade tenta mascarar a realidade afirmando que as mulheres já conquistaram todos os direitos e escolhas que as colocam em pé de igualdade com os homens. Mentira absurda! Os media, em geral, propagam fortemente na publicidade, nas telenovelas e nos filmes, a passividade da mulher em relação ao homem e legitima o corpo da mulher como objeto sexual.
 
Igualdade de género nunca matou ninguém, mas o machismo mata todos os dias e é importante que todos tenhamos uma noção clara destes conceitos, para que possamos entrar numa luta justa. 
 
Não serei mulher livre enquanto outras mulheres viverem oprimidas. Viverei acorrentada, ainda que as correntes delas não sejam as minhas. 
O sol quando brilha é para todos, não é?
 
Então porque é que algumas mulheres nunca mais poderão vê-lo brilhar?  
14 janeiro

O SER HUMANO NÃO É PERFEITO

O ser humano falha e são as suas falhas que o permitem aprimorar-se.
 
No entanto, o medo de falhar é uma constante. Está sempre presente, como uma pulga profundamente entranhada no nosso corpo.
 
O que acontece é que ao permitirmos que as nossas crianças cresçam toldadas pelo medo, estamos a projetar um futuro triste e sem sonhos. 
 
Quantos de nós já desistimos de fazer aquilo em que realmente éramos bons?
 
Quantos de nós já desistimos de trabalhar com o que nos entusiasma e dá vigor à vida?
 
Matar o sonho é matar o que temos de verdadeiramente nosso, e infelizmente, os sonhos dos mais novos são aniquilados logo que se dão a conhecer. 
 
Crescemos numa era descartável, as pessoas assemelham-se a fotocopiadoras em massa, e vivemos para servir os ideais que nos foram incutidos desde tenra idade, ideais esses que fazem com que nos esqueçamos da nossa essência.
 
Nem todos nascemos com o desejo de seguir um curso de medicina, nem todos somos génios da matemática… Alguns de nós, queremos apenas seguir o coração! 
 
«Mas tu tens de ser alguma coisa, tens de tomar uma decisão», e se eu não quiser tomar decisão alguma? Dizem que as pessoas que se aventuram em dezenas de ofícios, fazem-no porque não sabem o que querem, de facto, da vida. 
 
Mas quem escreveu essa lei que nos obriga a escolher uma profissão e a conformarmo-nos a vida inteira com um trabalho que não nos faz sorrir?
 
Quem disse que precisamos optar por um mestrado numa área que nem gostamos assim tanto em detrimento de vários outros cursos que não nos garantem saídas profissionais, mas nos fazem sentir completos e felizes?
 
Eu quero ser tudo o que gosto de fazer, e se é esse o desejo das nossas crianças, então talvez seja nosso dever deixá-las serem tudo o que elas quiserem, desde que o sejam com dignidade e respeito. 
 
Será que é mais importante formar adultos felizes ou adultos doutores?